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"Mr. Bungle é música para a vida toda"
É impossível pra quem já entrou num estúdio como músico e não se perguntar como o Mr. Bungle consegue produzir discos com tamanha competência. Todas estas passagens são costuradas com uma naturalidade, com uma realidade incrível. Faz parecer depois de algum tempo que a linearidade não mais importa. E esta foi a principal contribuição do Bungle na minha vida. Depois de conhece-los, passei a perceber que nada havia de ser linear. Que era possível fazer uma canção belíssima e desconstruir o arranjo, fragmentar, subverter a música e seguir qualquer caminho a qualquer hora.
Bom, depois do Disco Volante não sabíamos mais o que esperar deles. Foram longos cinco anos de especulações e notícias na Internet para termos o privilégio de conhecer California (Warner, 1999), a mais recente obra-prima do Mr. Bungle. Terceiro disco, terceira surpresa. Desta vez eles vieram com um disco mais pop, flertando com o clima californiano do começo dos anos 80. Flores, guitarrinhas havaianas, percussões, pianos e melodias mais acessíveis. Mike Patton parece atingir seu auge como cantor. Uma voz de crooner, quase que numa sátira aos grandes cantores, intercalada com os berros mais ensurdecedores do mundo.
Mas não se iludam. Todas as melodias pop, todas as canções são absolutamente devastadas por arranjos absurdos. Não raramente, uma faixa parece conter cinco ou seis músicas diferentes. Como "Ars Moriendi", que começa árabe, vira dance, depois tango, e depois country, ou "Goodbye Sober Day", que encerra o
di sco com vocais berrados numa espécie de reza-metal. Mais neste disco as loucuras passam para um outro nível, mais sutis. Canções como "Retrovertigo", "Pink Cigarette" ou "Vanity Fair", por um ou outro detalhe, passariam pelo crivo de algum diretor de rádio e até entrariam numa programação menos ortodoxa. São três discos muito diferentes, mas com algumas singularidades em comum: a riqueza de detalhes, de texturas, de arranjos, de letras; a riqueza de intenções. É isso que faz dos discos do Mr. Bungle, aquisições para a vida toda.
*Marcelo
Camelo

é guitarrista e vocalista do grupo
Los Hermanos.