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    Los Hermanos:Soprando pra um caminho mais feliz.

 

Menos de dois anos atrás, Los Hermanos era pouco mais que um rumor espalhado por quem conhecia o circuito carioca de rock e acreditava que aquela banda que misturava hardcore, ska, ritmos latinos e samba-canção com letras de amor (línguas mais afiadas chegaram a inventar o estilo "hardcorno" para a banda) poderia ser contratada por alguma grande gravadora. As fitas demo da banda ampliavam essa reputação. Curiosamente, foi uma música que ainda nem havia sido composta nessa época que catapultou-os ao estrelato nacional: "Anna Júlia", escrita quase de brincadeira, transformou-se no maior sucesso de 1999 e a banda acabou ganhando também o ódio dos que os acusam de serem armação da gravadora e caiu na estrada, fazendo mais de 150 shows em um ano. Em agosto, a primeira incursão internacional: tocaram na Argentina, onde seu disco de estréia foi lançado pelo pequeno selo Edel. Agora, depois disso tudo e das incontáveis versões de gosto duvidoso para seu maior sucesso, o que a banda quer é uma casinha no campo para descansar e preparar seu segundo álbum.

No começo, vocês eram a banda de que todo mundo no underground gostava, depois eram a banda que todo mundo apostava que poderia fazer sucesso, depois eram a banda que estava trazendo o rock de volta às FMs, depois eram a banda daquela música chata que não pára mais de tocar, depois eram os reclamões que ficavam choramingando por causa do sucesso. E agora, quem são Los Hermanos? 

Marcelo: Agora a gente já passou por tudo isso, está mais vivido. Foi um ano muito intenso, essa quantidade de opiniões sobre nós é muito significativa, indica que de alguma maneira a gente fez algum barulho na cena, que a gente agrada algumas pessoas e incomoda outras. Nunca quisemos ser unanimidade, nunca fomos unanimidade, nem no tempo de underground. A gente tocou durante um ano pelo país inteiro, fez shows em lugares que não tinham muito a ver com a banda.Tem lugares em que a gente sobe no palco, olha o público e sabe que ninguém ali nunca ouviu hardcore em toda a vida e estão pouco se fodendo para isso, querem que a gente toque "Anna Júlia" vinte vezes e vá embora. E a gente tem que fazer um show para essas pessoas, conquistar essas pessoas. E aprendemos isso. Quando a gente começou, tocava da primeira à última música sem parar, sem falar muita coisa. E aprendemos a trazer o público para dentro do show, entreter. É outro tipo de show. Tocamos em vários lugares e plantamos sementes, vamos ver no que isso vai dar. Foi um grande aprendizado, acho que estamos mais maduros em cima do palco e com as nossas declarações e mais tranqüilo. Estamos com a cabeça no segundo disco, pensando em como vai ser, esquematizando a pré-produção. Somos uma banda muito nova, temos um disco só. Eu acho que as coisas vão acontecendo à medida em que você acumula discos, acumula fãs. A gente vendeu 250 mil cópias do primeiro álbum, isso é muita coisa, muito mais do que a gente esperava e muito mais do que a gravadora esperava, tenho certeza. O segundo disco também vai vender, mesmo que não venda isso tudo, e a banda começa a criar uma história, uma identidade.

No que diz respeito à produção, o que muda do primeiro disco para o segundo? 
Marcelo: No primeiro, tínhamos algumas músicas, que já tocávamos nos shows. E agora a gente vai ter dois meses para fazer catorze músicas para o disco. A nossa idéia é nos isolarmos em algum lugar distante e ficar ensaiando, tocando, fazendo o disco. Vamos ter dois meses para isso e depois vamos para um estúdio gravar com algum produtor que ainda vamos escolher. E de alguma maneira, queremos participar um pouco mais das coisas do estúdio, das coisas do produtor, enfim. 

As músicas novas que estão sendo tocadas ao vivo devem entrar? 
Marcelo: A gente não sabe. Provavelmente "A Flor", que vai muito bem em shows e a gente gosta muito, deve entrar. Mas não sabemos, porque na verdade ainda não temos o repertório. Temos as músicas feitas em violão, vamos sentar para fazer o arranjo e tudo vai depender de como isso correr, como vão ficar as músicas, para podermos então dar uma selecionada. 

Vocês planejam ter mais controle sobre a escolha das músicas de trabalho? 
Marcelo: Na verdade, isso é muito difícil. A gente está numa gravadora que trabalha de uma maneira diferente; a opinião da banda na escolha da música de trabalho parece não importar muito. Vide o lance de "Primavera", que acho que já é sabido que não queríamos que fosse a segunda, queríamos que fosse algo mais pesado para mostrar a pluralidade do disco e da banda. Então a gente não sabe, estamos procurando ignorar um pouco essas questões agora para podermos fazer o disco de cabeça fria. Se ficarmos pensando em qual música a gravadora vai escolher, se fizermos um disco em função da opinião da gravadora, vamos acabar cerceando nossa criatividade e fazendo um disco ruim. 

Até porque muita gente acreditava que vocês não incluiriam baladas no próximo disco para não correr o risco de isso acontecer de novo. 
Marcelo: Pois é, eu acho que fazer um disco todo de hardcore seria tão infantil e tão contra nós mesmos quanto fazer um disco só de baladas, entende? A gente tem que fazer um disco do jeito que a gente gosta, a gente tem isso muito tranqüilo dentro de nós, que a balada é um negócio que nos cabe. A gente gosta disso, a gente gosta de "Primavera", a gente gosta de "Anna Júlia", é o nosso lado Weezer, nosso lado de canção e a gente não tem nada contra isso. Ficar tirando isso do disco seria meio infantilidade, eu acho. 

E nas viagens pelo país, que bandas vocês conheceram? 
Marcelo: Nós sempre tivemos muito contato com a cena underground, principalmente eu e Alex (N.E.:Alex Werner, empresário da banda), por causa do fanzine que fazíamos. A gente sempre gostou muito de ouvir fita demo, então já encontramos muita gente que conhecíamos de trocar correspondência, de gostar da banda. A gente já tocou com o Relespública e foi do caralho. Quando eu comecei a ir a shows, um dos primeiros shows underground que fui foi o deles, no Superdemo (N.E.:festival carioca de bandas iniciantes), lá no Arpoador. Então, a gente encontrou uma galera muito legal. Por exemplo, o Bois de Gerião, que eu conhecia só de nome, nunca tinha escutado nada, a gente tocou com eles em Brasília. Ganhamos o CD de uma banda chamada Video Hits, do Diego. E foi legal porque a gente levou o disco na nossa gravadora e eles acabaram sendo contratados, acabaram de gravar um disco pela Abril. Em Recife sempre tratam a gente muito bem, a gente já esteve lá várias vezes e encontra a galera do Sheik Tosado, Viasat, do Eddie. Outra coisa legal foi que a gente conheceu a galera do Repolho, lembra do Repolho? Banda antológica que pouquíssima gente conhece e eu e o Alex éramos fãs ardorosos. A gente tinha a demo e ouvia o dia inteiro. E a gente passou por Chapecó, indo para um outro lugar, só que tínhamos que esperar um vôo que estava vindo de São Paulo. Aí o Alex correu atrás, conseguiu o telefone do cara da banda, acho que ele se chama Roberto, e ele veio almoçar com a gente. Foi do caralho, a gente tirou foto junto, ele trouxe CD pra gente, trouxe um livro do irmão dele, o Demétrius, que era da banda também. De vez em quando a gente consegue encontrar umas figuras assim, que são muito legais e bem engrandecedoras. Mas geralmente é uma pena, porque na maioria das vezes a gente não tem tempo de trocar idéia, de conversar. A gente combina na passagem de som, acha legal quando aparecem nos shows, bate um papo no camarim. Mas não dá de... tipo, eu queria ir pro Sul e levar um som com a galera do Video Hits, conhecer o Frank Jorge, conversar com ele. Mas não dá tempo. 

E a passagem pela Argentina, como foi? 
Bruno: foi muito bacana. A gente chegou lá absolutamente sem saber o que ia acontecer. Chegamos sem referencial nem informação, só sabíamos que íamos fazer um show num lugar pequeno (N.E.: o bar Maluco Beleza). Fomos num programa de televisão, fomos às rádios e lá é um país mais fácil de abranger, porque é menor e mais centralizado. Então, se você aparece na televisão, no dia seguinte é reconhecido nas ruas e foi o que aconteceu com a gente. A gente apareceu na televisão e no dia seguinte estava dando autógrafos nas ruas. E no dia do show, foi inacreditável. É impressionante, a gente fala isso e às vezes as pessoas não conseguem imaginar perfeitamente, mas foi muito melhor até do que alguns shows que a gente fez no Rio. Como eles sabem cantar as músicas eu não sei; 80% do público era certamente de argentinos e eles sabiam cantar todas as músicas, até as do lado B, que nem no Rio, que é o nosso público cativo, a galera sabe cantar direito. O que a gente acha é que muitos argentinos vieram para o Brasil no Carnaval, levaram os discos e a coisa foi se popularizando lá em Buenos Aires de forma que o disco ficasse conhecido. E o show ficou aquele esquema, tipo "quem perdeu, se ferrou". É o que contam para a gente, que ficou meio lenda na cidade. Foi um show pequeno e quem não foi, perdeu.
Marcelo: O mais legal de tudo é que não foi um lance de gravadora, foi um fenômeno natural que aconteceu. Os caras vieram passar o verão aqui, conheceram o CD por conta do sucesso de "Anna Júlia", levaram, a música começou a tocar na rádio e estourou. Uma coisa espontânea. E foi uma primeira viagem em que a gente plantou muita coisa, já rolou proposta de fazer uma turnê por lá, mais dez shows. 

E eles perguntaram sobre o nome da banda? 
Marcelo: Perguntaram, estranharam um pouco o fato da banda brasileira ter nome em espanhol. Aí a gente falava que é porque gostamos muito das bandas latino-americanas, o que é verdade. Tem muitas bandas buscando caminhos estranhos para se fazer rock e no Brasil não tem, pelo menos não com notoriedade, como os Fabulosos Cadillacs, por exemplo, que é uma banda grande, conhecida, que lota shows, vende muitos discos e faz um rock revolucionário. Os dois últimos discos dos Fabulosos são revolucionários e fazem muito sucesso. No Brasil, isso não existe, apesar de ter muita banda bacana. 

Por que isso não acontece no Brasil? 
Marcelo: Acho que falta mudar a mentalidade da molecada daqui, a galera mais nova. Ainda rola muito a parada de banda ser um status, o cara gosta de alguma banda porque aquilo atribui algum valor a ele. Então, ninguém vai querer gostar de uma banda que nem a nossa, por exemplo, que fala de amor, nem de um cara que insistem em dizer que é gente normal. Neguinho quer um cara que seja forte, que fale palavrão, o estereótipo de roqueiro, de masculinidade, de força, de raiva. A gente faz rock que fala de amor, fala de delicadeza, de gentileza. Falta a galera perceber que música é arte, fazer outras apreciações estéticas, ouvir mais música. Isso é cultura, mas infelizmente a gente mora num país em que a cultura é muito pouco difundida. As rádios não promovem a cultura, promovem a repetição de uma ou duas músicas, como fizeram com a gente e fazem com todas as bandas. Não é uma coisa plural, de respeito ao artista. Eles pegam uma coisa, transformam em embalagem de sabão em pó, vendem, vendem, vendem, vendem, vendem, até se esgotar e acabou. E ninguém sabe se quem nasceu antes foi o ovo ou a galinha: as pessoas esperam isso das rádios, as rádios tocam isso e conseguem audiência, é uma preguiça burra.