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Como o rock brinca de carnaval e dá samba
Para
um grupo de rock que ignora figurino de artista (vai do básico calça jeans e
bermudão e camiseta), fala de amores deslavadamente, é influenciado por samba,
toca hardcore e carrega um nome latino por aí, o Los Hermanos surpreendeu,
pregou uma bela peça na engessada indústria fonográfica. Seu disco de estréia
lançado em 1999, um marco para o novo levante do rock nacional, vendeu
significativas 250 mil cópias, ganhou a Argentina, teve o hit "Anna Júlia"
cantado em coro pelos trios elétricos do carnaval baiano do ano passado e
plantou a semente do pop romântico de norte a sul do país. Seu sucessor,
previsto para sair em julho, pela Abril Music, é de difícil análise pelo
grupo, pelo menos até hoje. O primeiro também era.
- Ainda não temos o distanciamento necessário para opinar mais a fundo -
admite Marcelo Camelo, autor de boa parte das letras, cantor e compositor. - É
um disco que tem a ver com o fim do carnaval, com a Quarta-Feira de Cinzas, a
solidão do bate-bola, as marchinhas.
Então tá.
Revelados no Abril Rock de 1998 mas então já conhecidos no meio universitário
e no underground carioca, os Hermanos fizeram mais de uma centena de shows com
uma mistura esquisitinha de hardcore-rock-samba inusitadamente melódica.
Rodrigo Amarante e Camelo abandonaram o curso de jornalismo da PUC no último
período. Os pais entenderam o tranco. Filhos da classe média alta, os Hermanos
deram retorno mais cedo do que esperavam aos criadores. Aliás, nem esperavam
nada.
- Antes eu fazia faculdade, não tinha um centavo no bolso e meu pai vivia
dizendo que eu estava perdendo meu tempo - conta Amarante. À frente do palco um
cantor-guitarrista-jornalista com pinta de galã de baile de debutantes,
seguidor de Noel Rosa e Weezer (Camelo), e ao lado um ex-hippie adepto de Fagner
a Frank Sinatra (Amarante), segunda voz com sopros e percussões. E o que saía
das caixas de som era fúria. Uma fúria cantada com sotaque galanteador e
inesperado no limiar do brega.
- Falar de amor para a gente é algo inerente à nossa produção musical -
continua Camelo, amante à moda antiga confesso.
- As palavras de amor quando são faladas caem no lugar-comum e viram clichê -
filosofa o toca-tudo Amarante, o outro autor dos versos embevecidos em dores de
amores. - Quando se transforma em imagem já é outra coisa.
Ao abrir a porta do estúdio de Chico Neves, no Jardim Botânico, Zona Sul do
Rio, ecoam pérolas como "A flor". ("Ouvi dizer, do teu olhar ao
ver a flor/ Não sei por que achou ser de um outro rapaz/Foi capaz de se
entregar... /Eu fiz de tudo pra ganhar você pra mim, mas mesmo assim... /Minha
flor serviu pra que você achasse alguém/Um outro alguém que me tomou o seu
amor/Eu fiz de tudo pra você perceber que era eu"). Pode? Chico Neves
ratifica que sim. - Confesso que nunca havia ouvido o disco deles - admite o
produtor de Rappa e Cidade Negra, que assumiu a direção musical em lugar de
Rafael Ramos e Rodrigo Castanho. - E estou inteiramente seduzido, apaixonado
pelo som deles, é totalmente diferente do que se faz hoje em termos de música
pop no Brasil, tem identidade.
Saem "Barbara", "Tenha dó", "Lágrimas sofridas",
"Quem sabe" e "Primavera", entram "Sentimental",
"Todo carnaval tem seu fim", "Veja bem, meu bem", uma seara
de novas canções de amor. Seria uma parte II do primeiro CD?
- Uma continuação, talvez - estimula o debate Camelo. - Nosso som está mais
lapidado, as músicas, maiores (no outro CD tinham em média dois minutos), e o
peso está mais no clima do que na distorção. - Estou tocando guitarra agora,
diferente do Marcelo, mais dramática, mais intervenções, e acho que abrimos
para mais experimentações.
- Temos equipamentos melhores - participa o tecladista Bruno Medina, que trocou
timbres fakes de um teclado fora de mão por um moog, um Fender Rhodes, o Triton
da Korg e, no CD, um piano de cauda, que será gravado amanhã no Teatro do Ibam
para dar um glamour básico. - Ousamos mais nos arranjos.
- Estou batendo mais forte - completa o leque de opiniões da banda o baterista
Barba.
- Vou seguindo o que eles fazem. Há ritmos diferentes agora.
Está faltando uma fala. É a do baixista Patrick Laplan, dispensado da banda em
novembro do ano passado, num sítio em Barra do Piraí, onde o então quinteto
encontrava-se em fase de pré-produção. Assunto delicado, Camelo corta,
limitando-se a dizer que a mudança aconteceu por conta de "divergências
musicais":
- Desejo boa sorte a ele, não quero falar sobre esse assunto.
Laplan, por outro lado, lamenta o episódio: - Foi uma parada estranha, até
agora não sei direito o que rolou - diz o baixista, que cobra seus direitos
através de um advogado, mesmo ainda longe dos anais da Justiça, e foi substituído,
pelo menos no CD, por Kassin (Acabou la Tequila, Moreno+2).
- De repente chegaram para mim e disseram que o clima estava ruim e que eu
precisava seguir meu caminho. Cheguei ao cúmulo de me oferecer só para fazer
os shows e eles chamarem outro baixista para o disco e mesmo assim não
quiseram. Sou sócio deles, tranquei faculdade, passei meses produzindo demos em
casa, investi nisso. Já me ameaçaram de um monte de coisas, dizendo que têm
isso e aquilo contra mim. Vamos ver, não quero um mundo de dinheiro, quero
apenas o justo.
Mario
Marques
fonte: Jornal O Globo